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O SOM DO CINEMA MUDO E NÃO SÓ…

Como se pode verificar a contracapa do Boletim da programação do Fórum Municipal Luísa Todi, do último quadrimestre de 2019, chama a atenção do cinéfilo e do público em geral para uma iniciativa da Câmara Municipal de Setúbal que pela primeira vez decorre no Fórum depois da sua reabertura em 2012. O nascimento de um Festival dedicado parcialmente ao cinema mudo poderá nem ser caso único. É novidade, sem margem para dúvidas, na capital do Sado, a apresentação de filmes do início da história do cinema com cópias restauradas e com acompanhamento de grupos orquestrais e vocais, ao vivo, e especialmente criados propositadamente para a arte da fixação de imagens em movimento, invenção que, para nós europeus, atribuímos aos Irmãos Lumière e nos Estados Unidos é dado como certo ser uma criação de Thomas Edison.Mais atual do que nunca, encaixa na perfeição recordar a célebre frase de Jean-Luc Godard: cineasta-mestre da Nouvelle Vague: “o mais importante na imagem é o som! ”. Este conceito leva-nos a assistir à projeção de películas do tempo do mudo, e não só, com uma moderna conceção musical baseada no acompanhamento da projeção, com música e narração ao vivo. Era normal nas salas ou teatros mais prestigiados do primeiro terço do Sec. XX, proceder deste modo, chegando-se ao ponto de revisitar obras do chamado teatro musicado através da imagem sem som com acompanhamento musical sincronizado; com instrumentistas num fosso ou ao lado dos cantores atrás do écran, e nalguns casos até com atores a debitarem diálogos em substituição de toda ou parte da legendagem.Talvez o melhor exemplo seja o do musical SHOW BOAT na sua primeira versão cinematográfica de 1929 filmado sem som para a maior parte dos cinemas e numa versão com (algum) som e duas das canções originais de Jerome Kern nas poucas salas equipadas com o sistema Vitaphone. Refiro-me a um sistema de discos sonoros sincronizados com a imagem e antes da banda sonora ser oticamente incluída no filme a projetar. Era a revolução das salas de cinema pequenas e grandes em que os filmes, aos poucos, se deixavam de apresentar, na maior parte das vezes acompanhados a piano, ou por pequenos grupos orquestrais e corais que cresciam no fosso de orquestra de acordo com as possibilidades monetárias dos produtores. Chamo especial atenção para o programa deste novo festival, que inclui algumas obras importantes da história do cinema mudo e três filmes da época do sonoro, também com música ao vivo.. Ver pormenores nas páginas 26 e 27.Também neste quadrimestre inaugura-se um novo ciclo de masterclasse de Lauro António intitulado “Filmes que Amo” , uma seleção de 60 filmes de autor, programados pelo ilustre realizador, crítico e pedagogo.Com um toque de diversas reações sensorais e um pouco de ironia, poder-se-ia intitular também este novo ciclo como:“…de La Violetera a O Último Ano em Marienbad”. A programação integral desta 1ª série encontra-se nas páginas 15 a 19.

Já no final de Setembro chamo a atenção para um concerto muito especial que foi grande êxito no Festival ao Largo do Teatro Nacional de São Carlos, deste ano: Há Música Popular Brasileira-Tanto Mar, Tanto Mar com a colaboração dos instrumentistas Pedro Meireles, António Figueiredo, Joana Cipriano, Irene Lima, Manuel Rego, Pedro Carvalho, Eduardo Jordão e da atriz/cantora Luanda Cozetti.No campo das grandes realizações sinfónicas 11 programas apresentam-se na VI Temporada Sinfónica de Setúbal (2019/2020) com orquestras da Metropolitana por via do protocolo celebrado entre a CMS e a AMEC, contando-se ainda e pela primeira vez com a Orquestra Gulbenkian em dois concertos na mesma temporada.Destaque muito especial para a audição integral em Maio de 2020 dos Concertos para Piano e Orquestra de Beethoven, na celebração dos 250 anos do nascimento do grande compositor de Bonn, tendo como solista António Rosado e a direção musical de Pedro Amaral maestro titular da OML. Será a repetição, certamente, do grande êxito de idêntica maratona com a Integral das Sinfonias de Beethoven que apresentámos no FMLT em 2016. Assinale-se nesta temporada a presença dos maestros Raphael Oleg, Jean-Marc Burfin, Paolo Bortolameolli, Pedro Neves e dos solistas Raul da Costa (piano) Ana Pereira (violino) e Nuno Inácio (flauta).Ainda no campo da música clássica e para além das produções locais garantidas por Escolas de Música e Academias destaque para as habituais Jornadas de Música de Câmara de Setúbal na sua 5ª edição que conta no seu concerto inaugural com a presença do grande pianista português Artur Pizarro. Também se apresentam nas referidas jornadas laureados do Prémio Jovens Músicos da Antena 2 e os solistas Cristiano Rios (percussionista) Janete Santos (flauta), Jorge Camacho (clarinete) e Anna Tomasik (piano).O teatro e a pujança das produções locais e nacionais tomam parte significativa da programação até Dezembro a saber com: Teatro Estúdio Fontenova, Teatro Animação de Setúbal, Rita Ribeiro, Yellow Star Company e Maria João Luis e a sua companhia Teatro da Terra. O Festival de Poesia – O Som da Tinta atravessa também a programação assinalando os 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen e homenageando também o poeta eborense Manuel Gusmão, contando este certame com a participação da Lisbon Poetry Orchestra e um concerto com Lula Pena.A Orquestra Jazz de Matosinhos apresenta-se no segundo de uma série de concertos em digressão e a programação conta ainda com a presença de Ricardo Ribeiro, Mário Daniel, Eliseo Parra Trio, Ronda dos Quatro Caminhos e 10º aniversário da Rádio Amália.As Bandas da Armada e do Exército, o Coral Luisa Todi, as festas de Natal habituais e a celebração dos 40 anos do Coral Infantil de Setúbal completam a programação.O ano termina com mais uma série de audições para o projeto Luisa Todi Jovens Clássicos cujos pormenores de participação vêm mencionados nas últimas páginas deste caderno de programação.

João Pereira Bastos

Diretor